O que muda no Facebook e Instagram após o caso envolvendo a Cambridge Analytica

Passei dias estudando sobre tudo que aconteceu envolvendo o Facebook e o vazamento de dados pela Cambridge Analytica. As informações parecem ruins, mas se observarmos as entrelinhas, muita coisa que aconteceu serve também para uma auto analise comportamental. Mas, antes de contar pra vocês sobre as mudanças implementadas nas plataformas, vou contextualizar de forma simplificada para que todos possam entender a lambança toda.

SOBRE O ESCÂNDALO

A Cambridge Analytica  análise de dados com comunicação estratégica para processos eleitorais e segundo denúncias feitas pelo New York Times e The Guardian, a empresa teria usado informações de mais de 50 milhões de pessoas “sem co consentimento delas”. A frase está em aspas, pois em uma matéria recente aqui do blog, eu falei sobre limpeza digital e apontei que ao autorizarmos aplicativos e sites terceiros a se conectarem com os nossos perfis, deveríamos estar cientes de que eles teriam nossos dados. Certo? Mas, no caso, a Cambridge Anaytica comprou os dados obtidos a partir de um teste psicológico criado no Facebook pelo pesquisador Aleksandr Kogan. Ao participar, os usuários entregavam seus dados e de bandeja, dados de todos os amigos conectados ao perfil. Em posse dessas informações, por sua vez, a Cambridge Analytica teria usado um sistema para influenciar as escolhas dos eleitores na eleição de Donald Trump.

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Vale ressaltar que a Cambridge Analytica também está sendo investigada por proliferação de notícias falsas.

POSICIONAMENTO DO FACEBOOK

Há dois anos, o Facebook havia sido comunicado sobre o vazamento de dados, em 2015 tirou o aplicativo que coletava as informações do ar, mas só suspendeu a Cambridge Analytica do Facebook em março desse ano. Eles demoraram um pouco para admitir publicamente que algo estava errado, mas quando fizeram, o CEO, Mark Zuckerberg foi o responsável em assumir a culpa, contar detalhes e comunicar o que seria feito para que situações como essa sejam evitadas.

Nesse post, ele fez um resumo dos acontecimentos e vale destacar alguns trechos, tradução livre:

Em 2007, lançamos o Facebook com a visão de que os aplicativos deveriam ser sociais. Seu calendário deveria ser capaz de mostrar os aniversários de seus amigos, seus mapas devem mostrar onde seus amigos moram e seu álbum deveria mostrar suas fotos. Para fazer isso, permitimos que as pessoas acessassem aplicativos e compartilhassem quem eram seus amigos e algumas informações sobre eles.

Em 2013, um pesquisador da Universidade de Cambridge chamado Aleksandr Kogan criou um aplicativo de teste de personalidade. Foi instalado por cerca de 300.000 pessoas que compartilharam seus dados, bem como alguns dados de seus amigos.

Em 2014, para evitar abusos por parte dos aplicativos, anunciamos que estávamos mudando toda a plataforma para limitar drasticamente os dados que os aplicativos poderiam acessar. Mais importante, aplicativos como o Kogan’s não podiam mais pedir dados sobre os amigos de uma pessoa, a menos que seus amigos também autorizassem o aplicativo.

Em 2015, soubemos com jornalistas do The Guardian que Kogan compartilhou dados de seu aplicativo com a Cambridge Analytica. É contra nossas políticas para desenvolvedores compartilhar dados sem o consentimento das pessoas, então banimos imediatamente o aplicativo da Kogan da nossa plataforma, e exigimos que a Kogan e Cambridge Analytica deletassem todos os dados adquiridos indevidamente. Eles forneceram essas certificações.

Na semana passada, soubemos pelo The Guardian, The New York Times e Channel 4, que a Cambridge Analytica pode não ter excluído os dados como haviam certificado anteriormente. Nós imediatamente os proibimos de usar qualquer um dos nossos serviços. A Cambridge Analytica afirma que já apagou os dados e concordou com uma auditoria forense de uma empresa que contratamos para confirmar isso.

 Dias depois, Mark se pronunciou novamente, para falar sobre o Atalho de Privacidade, que vai mostrar todos os aplicativos que fizemos login na parte superior do Feed de Notícias, para que eles possam ser removidos facilmente caso não estejam mais em uso.

Em breve a novidade chegará para todos os perfis. Caso queira checar os seus acessos agora mesmo, vá em CONFIGURAÇÕES > APLICATIVOS E SITES. Saiba mais aqui!

Para acalmar o coração de quem ama o Facebook, os usuários de modo geral, Mark anunciou uma série de medidas e vão:

  • Investigar todos os aplicativos que tiveram acesso a grandes quantidades de informações antes da alteração da plataforma para reduzir drasticamente o acesso a dados em 2014;
  • Realizar uma auditoria completa de qualquer aplicativo com atividade suspeita.
  • Restringir o acesso a dados para evitar outros tipos de abuso. Por exemplo, removendo o acesso dos desenvolvedores aos dados se o usuário não usar o aplicativo em três meses.
  • Reduzir os dados que o usuário fornece ao aplicativo ao fazer login, apenas para nome, foto do perfil e endereço de e-mail.
  • Exigir que os desenvolvedores não só obtenham aprovação, mas também assinem um contrato para solicitar acesso a postagens ou a outros dados privados.

O QUE MUDA NO FACEBOOK

Diante a tantos acontecimentos, o Facebook que já havia implementado algumas medidas para impedir o uso indevido de dados por terceiros, eles resolveram antecipar algumas mudanças que aconteceriam no segundo semestre. Nessa semana, eles anunciaram uma mudança na sua API – Application Programming Interfae – que permite a integração de serviços por empresas terceiras. Isso significa que todos que usam API para oferecer serviços, por exemplo de: monitoramento, relatórios, compra de likes, compra de seguidores, etc.. Foram impactadas. Nos grupos social media, notei várias postagens de pessoas que utilizam esses serviços, contando que nem mesmo via suporte conseguiam atendimento. Claro, tá acontecendo um turbilhão de coisas nessas empresas, já que o que muda é:

API para Eventos: As pessoas podiam permitir que aplicativos obtivessem informações sobre eventos que elas organizavam, incluindo eventos privados. Isso tornou mais fácil a inclusão de Eventos do Facebook em calendários, ingressos e outros aplicativos. Mas os Eventos do Facebook têm informações sobre a presença de outras pessoas, bem como postagens no mural do evento. Por isso é importante garantir que os aplicativos usem o acesso de maneira apropriada. A partir de hoje, os aplicativos que usam a API não poderão mais acessar a lista de convidados ou as postagens no mural de eventos. E, no futuro, somente aplicativos que aprovarmos e concordarem com requisitos rigorosos poderão usar a API de eventos.

API para Grupos: Os aplicativos precisavam da permissão de um administrador ou de um membro do grupo para ter acesso ao conteúdo de grupos públicos ou fechados, e a permissão de um administrador para grupos secretos. Esses aplicativos ajudaram os administradores a publicar e responder facilmente ao conteúdo em seus grupos. No entanto, existem informações sobre pessoas e conversas nos grupos que queremos ter certeza de que estão protegidas. No futuro, todos os apps que usarem a API de Grupos precisarão ser aprovados pelo Facebook e por um administrador para garantir que eles beneficiem o grupo. Os aplicativos não poderão mais acessar a lista de membros de um grupo e informações pessoais serão removidas, como nomes e fotos de perfil, anexadas a postagens ou em comentários que os aplicativos aprovados podem acessar.

API para Páginas: Qualquer aplicativo poderia usar a API para Páginas para ler publicações ou comentários de qualquer página. Isso permitia que os desenvolvedores criassem ferramentas para ajudar os donos de páginas a fazer coisas como agendar publicações e responder comentários ou mensagens. Mas também permitia que os aplicativos acessassem mais dados do que o necessário. Para garantir que as informações das Páginas sejam disponibilizadas apenas para aplicativos que tragam serviços úteis, todo acesso futuro ao API para Páginas deverá ser aprovado pelo Facebook.

Facebook Login: O Facebook precisará aprovar todos os aplicativos que solicitem acesso a informações como check-ins, curtidas, fotos, publicações, vídeos, eventos e grupos. As pessoas não poderão mais conceder aos apps acesso a informações pessoais, incluindo crenças religiosas ou políticas, status e detalhes de relacionamento, listas personalizadas de amigos, histórico escolar e profissional, atividades físicas, de leitura e musicais, leitura de notícias, hábitos de assistir a vídeos e de acesso a jogos. Foi removida a capacidade dos desenvolvedores de solicitar dados que as pessoas compartilham com eles caso o aplicativo não tenha sido usado nos últimos três meses.

Busca e Recuperação de Conta: As pessoas podiam inserir o número de telefone ou endereço de e-mail de outra pessoa na pesquisa do Facebook para ajudar a encontrá-la. Isso foi importante para encontrar amigos em idiomas que exigem mais esforço para digitar um nome completo, ou em casos onde muitas pessoas têm o mesmo nome. Em Bangladesh, por exemplo, esse recurso representa 7% de todas as pesquisas. No entanto, agentes maliciosos também abusaram desses recursos para coletar informações de perfis públicos ao enviar números de telefone ou endereços de e-mail que já possuíam por meio de pesquisa e recuperação de conta. Dada a escala e a sofisticação da atividade que vimos, acreditamos que a maioria das pessoas no Facebook poderia ter tido seu perfil público afetado. Então agora esse recurso foi desativado.

Histórico de chamadas e texto: o histórico de chamadas e de texto é parte de um recurso opt-in para pessoas que usam o Messenger ou o Facebook Lite no Android. Isso nos permite classificar melhor as listas de contatos no Messenger e no Facebook Lite. No entanto, não é preciso manter o histórico completo de chamadas e de textos das pessoas para fazer isso. Por isso, esse recurso foi alterado para enviar menos dados para o servidor e reter esses dados por apenas 12 meses.

Provedores de Dados e Categorias de Parceiros: Os planos são de encerrar as Categorias de Parceiros, um produto que permitia que provedores de dados terceiros oferecessem sua segmentação diretamente no Facebook.

API para Jogos: Atualizada – Incluem apenas os jogadores que jogaram um jogo no contexto especificado (por exemplo, um segmento do Messenger ou um Grupo do Facebook). Descontinuada – Um número de APIs de jogos em torno de pontuações e conquistas. Também está sendo removido a API de amigos para os jogos da web do Facebook, que permite que um aplicativo convide pessoas que não jogaram antes. As solicitações de aplicativos para jogadores existentes de um jogo continuarão a funcionar normalmente.

O QUE MUDA NO INSTAGRAM

Os seguintes recursos serão encerrados:

Conteúdo público: Todos os recursos restantes para ler posts públicos em nome de um usuário
Lista de seguidores: Acesso a lista de seguidores e usuários seguidos
Relacionamentos: Para seguir e deixar de seguir as contas em nome de um usuário
Comentar o conteúdo público: Postar e excluir comentários em nome de um usuário em posts públicos
Curtir: Curtir posts em nome de um usuário
Assinaturas: Receber notificações quando um post é publicado
Informações do usuário: Para procurar e visualizar o conteúdo público dos usuários
Algumas informações que retornam por meio de pesquisa de hashtag e localização: Nome, Bio, Comentários, Comentadores, Contagem de Seguidores, Contagem Seguinte, Contagem de Postagens e Imagens de Perfil

Resumidamente, a API do Instagram pode ser usada para criar aplicativos e serviços não automatizados, autênticos e de alta qualidade que:

  • Ajude as pessoas a compartilhar seu próprio conteúdo com aplicativos de terceiros.
  • Ajude as marcas e os anunciantes a entender, gerenciar o público e os direitos de mídia.
  • Ajude emissoras e editores a descobrir conteúdo, obter direitos digitais para mídia e compartilhar mídia com a devida atribuição.

As empresas de médio e grande porte precisam interagir com o público e analisar o desempenho das respectivas estratégias de conteúdo em escala, então as ferramentas automatizam esse trabalho. Mas, algumas foram criadas pra fazer SPAM, promover o crescimento de perfis com curtidas compradas e inflar as curtidas as publicações. Tudo feito por robozinhos, que são bem inconvenientes na maioria das vezes. Quando eu percebia essa movimentação, eu respondia furiosa, mas nunca fui correspondida. 🙁

O que não muda:

API do Mentions: Facilite as interações entre empresas e pessoas. Permita que elas vejam a mídia na qual foram marcadas em foto ou @mencionadas e respondam.
API de descoberta de empresas: Descubra outras empresas. Saiba como outras empresas gerenciam a própria presença no Instagram visualizando as publicações orgânicas delas.
API de Informações:Ajude as empresas a acessar e a analisar métricas valiosas sobre o perfil comercial delas do Instagram. Ajude-as a compreender e a otimizar o desempenho do conteúdo orgânico delas no Instagram.
API de moderação de comentários:Estimule as interações em escala. Capacite as empresas para uma interação mais eficiente com o público por meio de comentários na mídia delas no Instagram.

IMPORTANTE PARA EMPRESAS E SOCIAL MEDIA

De vez em quando é bom colocar fogo no parquinho. Faz com que marcas e profissionais se movimentem de forma diferente. Esse é um bom momento para investir no Instagram, pois a competição pela atenção será feita de forma genuína e não mais com boots. Os custos de investimentos especificamente no Stories está bem baixo, em um anúncio na minha conta pessoal feito pelo gerenciador, o CPM foi de R$0,19.

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Nessa semana, fiz posts em quatro contas diferentes, usando as mesmas hashatgs de costume e notei uma queda significativa no engajamento. Isso não me deixou triste, pelo contrário, é o indício de que as mudanças que o Facebook anunciou já estão implantadas e desmascarando as ferramentas que curtiam posts automaticamente a partir da busca por hastags.

Porém, o lado que ainda não podemos mensurar, é qual será o impacto que ferramentas úteis no dia-a-dia da profissão vão sofrer. Minha dica é: aproveite o limão e faça uma limonada. Se você souber analisar dados captando informações “na unha”, ponto pra você. Claro que dependendo do volume, é algo inviável e dependeremos da atualização das plataformas ou então, em mostrar um novo cenário às marcas, que antes eram acostumadas a ter acesso à informações detalhadas sobre os usuários.

Dias desses, marquei uma reunião com uma plataforma que coletava influencers em potencial, tudo de forma automatizada. O trabalho deles, por hora, simplesmente acabou, pois não será mais possível ter acesso às informações via API do Facebook. Negócios sérios e que impactam positivamente no andamento dos nossos trabalhos serão impactados. O Tinder, que usava dados do Facebook, “quebrou” nessa semana.

Encerro esse post, mas não o assunto. Esse ainda vai rolar por um bom tempo. No próximo, vou falar sobre as mudanças para políticos, já que estamos em ano eleitoral.

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💁‍♀️  Jornalista, especialista em marketing. Falo sobre redes sociais e uso consciente da tecnologia. 🧠   

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