Por que você deve desativar as notificações das redes sociais

Eu tenho certeza que essa situação já aconteceu com você. No meio de uma conversa com os amigos ou uma quando você estava desenvolvendo uma atividade no trabalho, o seu celular emitiu um alerta sonoro. Imediatamente, como fosse um instinto natural, você parou de prestar atenção do que estava acontecendo pra ver a notificação. Você não só viu a notificação como entrou na rede social e demorou alguns minutos pra se tocar e voltar para o planeta terra.

Não estou te julgando. Eu já fiz isso também. Várias vezes. Infinitas vezes. Perdi a conta de quantas vezes. Inclusive, tenho uma história ruim nesse sentido. Eu era recém-habilitada, quando alguém da agência que eu trabalhava me mandou uma mensagem. Resolvi ler, mesmo dirigindo. Ainda que em baixa velocidade, cometi uma infração de trânsito, mudei o foco da minha atenção e causei uma batida leve no veículo da frente. Eu levei numa boa, como se fosse algo normal, fiquei até amiga do cara depois. Mas não era. Não pode ser.

Decidi ser jornalista pelos meus valores éticos e morais serem muito latentes. As redes sociais me mudaram um pouco. Por um longo tempo, acreditei que a sobrecarga de trabalho, horas extras sem remuneração, baixo piso salarial, vício em tecnologia e doenças mentais fossem o lado ruim da profissão, afinal, todas têm, né? Em partes sim. Nada que pode mudar o comportamento de uma sociedade, moldar ações que prejudiquem a vida e são prejudiciais devem ser normalizadas.

Eu comecei a ler alguns livros que me fizeram questionar o meu papel profissional. O primeiro deles, “Celular, doce lar” da Rosanan Hermann, a rainha do Twitter. Em um trecho ela diz:

“Mas a verdade é que se a internet e o celular podem ser maravilhosamente ilimitados, nós não. Nós precisamos de limites. Limite de velocidade para não dirigir como loucos e matar pessoas no trânsito; limite de ingestão de alimentos para não comer demais e sobrecarregar os órgãos do corpo; limite financeiro para não gastar mais do que temos; limite verbal para não ofender o outro. Limite de ousadia, de loucura, de tudo. Limites não são necessariamente ruins ou fruto de censura e autoritarismo. Limites podem impedir que crianças se tornem monstrinhos despóticos e que adultos se comportem de maneira abusiva. Limites são regras, leis, que as sociedades definem para que todos possam conviver conviver com o máximo de justiça, liberdade e igualdade.”

— Rosana Hermann

Meu Deus! Eu preciso de limite. Ela me fez refletir na batida do carro, em quantas vezes parei de conversar pra ver uma notificações, no tempo que eu perdia entre uma atividade ou outra pra ver o que os meus amigos postaram no Instagram, nos acidentes que eu me livrei por pura sorte. Nas vezes que meus amigos que gostavam de mim me repreendiam pelos Storys postados enquanto dirigia. Na crise de ansiedade por causa das mensagens no WhatsApp que chegavam da agência fora do horário de expediente.

Fiquei chocada sim com a forma como eu naturalizei tudo isso. A partir daí, não consegui mais achar tudo bem certas atitudes. Sabe o que aconteceu? Eu adquiri consciência. Faço questão de contar esses detalhes, pra você ter certeza de que a gente não nasce com ela. Existe um comportamento estrutural que presenteia as crianças com o primeiro smartphone antes de completar dois dígitos de idade. Que faz procedimentos estéticos para que o rosto fique igual ao do filtro. Que finge ter uma vida perfeita no feed, mas fora dele vive em ruínas. Que compartilha notícias falsas sem checar a fonte. Que reproduz frases e pensamentos machistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenofóbicos e encontram pessoas que ampliam esse discurso. Que permite serem controladas pelas notificações.

EU É QUE MANDO

Não tem como negar os benefícios que a tecnologia nos trouxe e como ela facilita a nossa vida. Eu me apego nisso pra não jogar o meu smartphone pela janela. Sabendo do lado positivo e do negativo, pude adquirir consciência para tomar as minhas próprias decisões e não ser manipulada por um algoritmo que explora e monetiza a vulnerabilidade do meu psicológico.

Falar sobre redes sociais não se trata apenas de tecnologia com tutoriais de como fazer. É abordar assuntos mais complexos, popularizar termos, mostrar caminhos, apontar soluções e sem dúvida alguma, ajudar outras pessoas a adquirirem consciência.

Temos pouco mais de 209 mi habitantes no Brasil e mais de 234 smartphones ativos, segundo dados do IBGE e FGV. Só aqui na minha casa, somos em duas pessoas, mas temos três. Se for para somar o total de telas, chegamos a nove. Se a gente não dominar, seremos dominados por elas.

TESTE DE COMPULSÃO

Em outro livro, “Celular, como dar um tempo”, fiz um teste e vou compartilhar abaixo. Agora é hora de avaliar o seu comportamento e ninguém melhor do que você pra falar sobre você mesmo. Existe o Teste da Compulsão por Smartphone, desenvolvido pelo americano Dr. David Greenfield, fundador do Center for Internet and Technology Addiction e professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Connecticut.

Assinale em um papel quantas vezes você respondeu SIM para as seguintes situações:

  1. Você passa mais tempo no celular do que se dá conta?
  2. Você com frequência passa um tempo distraído olhando para o celular?
  3. Parece que você perde a noção do tempo quando está no celular?
  4. Você passa mais tempo trocando mensagens, postando na mídias sociais ou enviando e respondendo e-mails do que conversando com as pessoas cara a cara?
  5. A quantidade de tempo que você passa no celular aumentou?
  6. Você gostaria de ficar menos envolvido com seu celular?
  7. Você dorme com seu celular (ligado) perto da cama com frequência?
  8. Você visualiza e responde mensagens e e-mails a qualquer hora do dia e da noite —mesmo que isso signifique interromper o que estava fazendo no momento?
  9. Você troca mensagens, e-mails e conversas no Facebook, Instagram ou navega na internet enquanto dirige ou faz outras atividades parecidas que exigem sua total atenção?
  10. Você sente que o uso do celular por vezes reduz sua produtividade?
  11. Você reluta em ficar sem seu celular, mesmo que por um breve período de tempo?
  12. Você se sente mal ou pouco à vontade quando esquece o celular em casa ou no carro, ou quando ele está quebrado ou sem sinal?
  13. Quando você come, seu celular está sempre à mesa ao seu lado?
  14. Quando seu celular toca ou vibra, você sente um impulso imediato de verificar mensagens, mídias sociais ou e-mails, atualizações e assim por diante?
  15. Você fica olhando seu celular várias vezes ao dia, mesmo quando sabe que não tem nada novo ou importante para ver?

Greenfield interpreta os resultados da seguinte maneira:

Se você marcou entre 1 e 2 perguntas como SIM:
Parabéns, seu comportamento é normal e não há nada a temer. Continue assim que a sua saúde está protegida.

Se você marcou entre 3 e 4 perguntas como SIM:
Seu comportamento tem uma tendência para o uso problemático ou compulsivo do celular. Cuidado, sua sa;ude pode estar ameaçada.

Se você marcou entre 5 e 7 perguntas com SIM.
É provável que você já tenha um padrão de uso problemático ou compulsivo do seu celular, mas ainda é tempo de corrigir sem a necessidade de pedir ajuda profissional.

Se você marcou entre 8 ou mais perguntas como SIM:
Você deve considerar se consultar com um psicólogo, psiquiatra ou psicoterapeuta especializado em vícios comportamentais. Sua conduta está trazendo problemas sérios que podem afetar a sua saúde.

ADQUIRINDO CONSCIÊNCIA

Eu marquei exatamente 8 pontos e me encaixava no padrão de olhar o celular 200 vezes com mais de 2.600 toques por dia. Por muito tempo me enganei, pensando que não existia nada de errado.

Foi então que decidimos estabelecer um plano de ação que pudesse mudar o nosso comportamento. Como tudo na vida, as coisas não mudam assim da noite para o dia. É preciso ter regras, disciplina, força de vontade e primeiro de tudo, consciência.

Entendemos que as notificações fazem parte de uma estratégia das redes sociais para nos avisar sobre acontecimentos que o algoritmos julgam importantes, tais como: comentários, curtidas, status, relacionamento, mensagens, entre outras. Quando a gente abre imediatamente, nosso cérebro recebe uma dose de dopamina que entende o comportamento como uma recompensa satisfatória, induzindo a repetição e potencialmente ao vício. Quem explica essa sequência é a ciência que trata dos estados e processos mentais, do comportamento do ser humano e de suas interações com um ambiente físico e social. A tecnologia se apropriou da vulnerabilidade da nosso cérebro para agir, certo? Mas, quem manda na nossa vida é a gente.

“Todos os viciados mostram uma perda de controle sobre a atividade, procurando por ela, apesar das consequências negativas, e desenvolvendo tolerância, de modo que precisam de níveis cada vez maiores de estímulo para ter satisfação. E sofrem abstinência se não conseguem o ato viciante”

— Catherine Price

Nesse mesmo livro, Price indica o artigo de um especialista em designer do Google, Tristan Harris. Em “Como a tecnologista está sequestrando a sua mente”, ele compara o ato de tirar o celular do bolso para ver as notificações a jogar com caça-níqueis. Nas palavras dele:

  • Quando puxamos para atualizar nosso e-mail, estamos jogando em uma máquina caça-níqueis para ver que novo e-mail recebemos.
  • Quando deslizamos o dedo para baixo para rolar o feed do Instagram, estamos jogando em um caça-níqueis para ver que foto vem a seguir.
  • Quando deslizamos o rosto para a esquerda / direita em aplicativos de namoro como o Tinder, estamos jogando em um caça-níqueis para ver se acertamos.
  • Quando tocamos no número de notificações vermelhas, estamos jogando um caça-níqueis para o que está por baixo.

FOMO – Medo de ficar por fora

A FOMO é a sigla da expressão em inglês “fear of missing out”, que significa “medo de ficar de fora”. Sua principal característica gira em torno da necessidade constante de saber o que as outras pessoas estão fazendo. Ela pode ser associada a sentimentos de inveja e o diagnóstico deve ser realizado por um médico especialista.

Pessoas que têm FOMO, têm uma necessidade constante em se atualizar nas redes sociais, mesmo quando estão realizando outras atividades e não se privam de dar aquela espiadinha nas notificações nem mesmo durante o sexo.

Esse comportamento que desencadeia a FOMO pode causar quadros de angústia, ansiedade, tristeza, mau humor, estresse e depressão.

PLANO DE AÇÕES

Como só vivenciamos aquilo que prestamos atenção e nosso cérebro não é capaz de pensar em várias coisas ao mesmo tempo, não podemos ser multitarefas, até nisso temos que pensar em um plano de ações com estratégias em prol da nossa saúde mental.

7 PASSOS PARA ATENÇÃO PLENA

1- Desative todas as notificações
2- Deixe o celular em casa quando for ao mercado, academia ou qualquer outra atividade que ele seria dispensável
3- Viva os momentos primeiro antes de publicar
4- Estabeleça horários para usar as suas redes sociais preferidas
5- Habilite controle de tempo no smartphone ou nos aplicativos
6- Perca todo e qualquer contato com as telas no mínimo três horas antes de dormir
7- Comece o dia com banho, café da manhã, caminhada… Faça qualquer coisa antes de checar as notificações do celular

Você não precisa seguir exatamente esses passos ou fazer como eu faço. É possível encontrar a sua forma de impor limites e dialogar com as pessoas ao seu redor para que comecem a fazer o mesmo. Essas são atitudes individuais que afetam a sociedade de forma geral e manda um recado direto para as empresas de tecnologia.

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