Profissão Social Media: explorada e autoexplorada

Durante muito tempo eu me senti culpada por diversos acontecimentos na minha carreira que eu achava que estavam fora do meu controle. Mas, não entendia muito bem o que se passava aqui dentro. Conquistei minha independência aos 18 anos, logo no meu primeiro emprego como jornalista. Foi nessa ocasião que eu experimentei o tédio. Fui demitida depois de apresentar sinais de insatisfação. Embora eu quisesse, fiquei surpresa e jurei naquele dia que nunca deixaria ninguém me demitir se eu estivesse incomodada com algo.

Os anos foram se passando e eu caminhando pelo universo digital em funções que eu jamais havia imaginado quando estudava. Quando me dei conta, a minha profissão era social media, a mocinha que sabia tudo sobre redes sociais, construía estratégias e comandava operações. Conforme passava por empresas e agências, me tornei tolerante ao tédio e aos poucos fui reconhecendo quando era a hora de procurar um emprego novo.

Demorei uma década para compreender o que exatamente causava o meu tédio, que é o estado de falta de estímulo. A sociedade pós-moderna do trabalho nos deu oportunidades que nossos pais nem imaginavam. Lembro-me quando trabalhei em casa, o ano era 2013, algumas pessoas achavam que eu simplesmente não fazia nada só porque não precisava ir todos os dias para o escritório. A autonomia e liberdade conquistada através do notebook, smartphone e a internet, nos dão o bônus e o ônus como social media.

Nos momentos em que me sentia mentalmente esgotada, a minha reação imediata era logo culpar o mercado e as pessoas que construíram um modelo de negócio sem qualquer tipo de cuidado humano. Contratos extremamente baixos, remuneração de equipes com salários vergonhosos, talentos sugados até a última gota de suor sem recebimento de hora extra, demissão de funcionários, mas nunca demissão de clientes tóxicos. Tudo pelo dinheiro, ego ou status. O social media entra em ciclo sistêmico já viciado e manipulado sob a ótica de gestores incompetentes. Nossas habilidades e competências são usadas para que façamos cada vez mais entregas. Entramos na era do social media de alto desempenho. Aquele que consegue fazer o planejamento, criar estratégias, textos, arte, fazer o SAC, configura campanhas, produz relatórios e no final das contas realiza as tarefas de uma equipe inteira, vezes 12 clientes, sendo remunerado com o piso de R$1.250.

A violência que alguns empregadores provocam não são explícitas e elas acabam causando algo muito mais eficiente para os resultados dos negócios do que a própria exploração. Eis que descobri o nome da minha culpa: ela se chama autoexploração e anda bem juntinha da liberdade e autonomia. O social media passa a trabalhar mais do que deveria, mesmo sem receber hora extra, para entregar os relatórios de modo com que não atrase para o cliente que nem vai ler suas análises.

Um trecho do livro Sociedade do Cansaço diz:

“Reagir de imediato e seguir a todo e qualquer impulso já seria uma doença, uma decadência, um sintoma de esgotamento.”

Quando a mente já usou todos os recursos para se manter ativa e comprometida com o desempenho, reagir por impulso é algo constante. É abrir a mensagem no WhatsApp assim que o celular emite um sinal sonoro. É responder o e-mail no mesmo minuto que ele surge na caixa de entrada. A gente se explora sem perceber, sem querer, sem ter a intenção de nos machucar. Todos os dias. O tempo inteiro. Até esgotar.

Da mesma forma que aprendemos a desenvolver nossas atividades técnicas, precisamos reaprender a fazê-las de forma consciente. O esgotamento chega para quem não reconhece o tédio e começa a lutar contra si mesmo. O mais triste é que não existe uma solução tipo receita de bolo que funcione para todo mundo. Cada ser é individual com necessidades, sonhos, medos, vidas e problemas únicos. Por isso mais do que nunca, o social media consciente precisa entrar em ação para identificar o que causa o tédio, quais são os gatilhos da autoexploração e quais são as alternativas que podem contribuir para que o esgotamento dê passagem para o novo, seja ele qual for.

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